
Da ilha ao ecossistema: por que ficou mais difícil encontrar o talento técnico certo em MediaTech
A tecnologia de mídia ficou mais conectada, multidisciplinar e difícil de sustentar com perfis isolados. Rafael Defaveri analisa o desafio de formar e encontrar o talento técnico certo e por que modelos flexíveis ganham espaço.
Encontrar bons profissionais técnicos nunca foi trivial em broadcast, quem já vive esse mercado há algumas décadas sabe disso. O ponto pra explorar nesse artigo é que o desafio parece ter mudado de natureza, e já quero começar explorando algumas fontes que confirmam essa hipótese.
Uma pesquisa da IABM (atual IAMT) realizada em 2024 mostrou que 80% dos respondentes consideravam difícil ou muito difícil recrutar profissionais para o setor de media technology. A pesquisa também ajuda a entender por que esse problema não se resume a "falta de gente". Além das dificuldades em software engineering, development, integration, systems architecture e broadcast engineering, a IABM aponta um problema de formação e atração de novos profissionais. Em muitos países, cursos específicos de broadcast engineering e AV technology diminuíram ou desapareceram, enquanto graduados de computação e software encontram oportunidades mais atraentes em outros setores. No Reino Unido, por exemplo, a pesquisa identificou uma diferença salarial média de 35% entre software engineers e broadcast engineers.
Mais recentemente, o IBC lançou uma iniciativa específica para mapear como profissionais chegam ao setor e desenvolvem suas carreiras. O estudo, realizado em parceria com organizações como SMPTE, IAMT e Rise Academy, parte justamente da percepção de que as rotas tradicionais de formação já não explicam sozinhas de onde vêm os profissionais necessários para sustentar a indústria. Universidade, programas de aprendizagem, experiência operacional, transição de carreira, background técnico e formação autodidata aparecem hoje como caminhos que se cruzam ao longo da trajetória profissional.

Fonte: IBC.
Esse cenário ajuda a explicar por que, na CIS, temos visto crescer a demanda por modelos mais flexíveis de acesso a talento técnico. Mas, antes de discutir soluções, vale entender por que esse profissional ficou tão difícil de encontrar.
De sistemas relativamente delimitados para um ambiente conectado
Durante décadas, boa parte da infraestrutura de broadcast era composta por sistemas dedicados, baseband e funções relativamente bem delimitadas. Isso permitia formar profissionais com grande profundidade em determinados domínios: vídeo, áudio, RF, transmissão, automação, pós-produção ou equipamentos específicos.
Esses especialistas continuam absolutamente necessários. O que mudou é o ambiente em que trabalham.
Hoje, um workflow pode atravessar broadcast, redes IP, software, cloud, armazenamento, segurança, automação e ferramentas de terceiros. Um problema que aparece no ar talvez não esteja mais no equipamento diretamente associado àquela função. Pode estar na rede, em uma aplicação, em uma integração, numa configuração de cloud ou na comunicação entre diferentes camadas do sistema.
Essa transformação não começou ontem. Me lembro de 10 anos atrás, que durante eventos como a SET Expo já se discutia a dificuldade de formar engenheiros de televisão com conhecimentos multidisciplinares.
Alguns anos depois, essa discussão ficou ainda mais relevante. A especialização continua valiosa, mas ela precisa vir acompanhada de uma visão mais ampla do ecossistema.
Na sustentação técnica de uma emissora, essa necessidade de transitar entre diferentes sistemas já faz parte da rotina. Em uma cadeia de pós-produção, por exemplo, o mesmo técnico, engenheiro ou analista pode atender plataformas de edição não linear de vídeo e áudio, gerenciamento de ativos de mídia, ingest, color grading e finalização. São soluções de diferentes fabricantes, muitas vezes com softwares e hardwares proprietários, que precisam funcionar em conjunto para que a operação avance.
Nesse contexto, o profissional costuma ter uma base generalista, com maior profundidade em alguns sistemas. Precisa compreender o workflow, reconhecer as dependências entre as ferramentas e conduzir o diagnóstico de problemas que nem sempre se originam onde aparecem. Essa visão operacional é uma competência construída pela experiência de sustentar o ambiente.
Mais conhecimento para aprender, em um setor difícil de ensinar
Existe outro problema importante: formar esse profissional leva tempo e custa caro.
Uma análise da SVG Europe sobre a escassez de skills em produção ao vivo mostra um cenário preocupante. Cursos especializados em engenharia de broadcast apresentavam taxas muito altas de empregabilidade, mas passaram a formar grupos muito menores de alunos. Ao mesmo tempo, profissionais experientes estão envelhecendo e a indústria não está conseguindo repor essa capacidade na mesma velocidade.
A dificuldade não é apenas acadêmica, é que muitas competências precisam ser adquiridas em ambientes reais.
O mesmo artigo cita o caso dos operadores de replay. Existe demanda por esses profissionais, especialmente em esportes, mas poucas universidades conseguem investir no equipamento necessário para reproduzir adequadamente esse ambiente de trabalho. Simuladores ajudam a ensinar princípios, mas não substituem completamente a experiência prática de operar sistemas específicos sob a pressão de uma produção ao vivo.
Esse exemplo ilustra um problema mais amplo do setor. É possível ensinar conceitos de networking, cloud, automação ou vídeo por diferentes caminhos. Transformar esses conhecimentos em capacidade operacional confiável exige exposição a sistemas reais, troubleshooting, integração entre tecnologias e experiência acumulada.
A combinação de competências dá força à equipe para enxergar além de cada sistema
Por isso, não acredito que a resposta esteja em procurar profissionais que saibam tudo. Esse perfil provavelmente não existe.
O que mudou foi a necessidade de combinar profundidade com contexto. O bom especialista precisa entender como sua área se conecta às demais e trabalhar com outros profissionais quando o problema atravessa diferentes domínios. O generalista também tem um papel importante: transitar entre diferentes sistemas e tecnologias, compreender suas dependências ao longo do workflow e conectar conhecimentos para atuar nos desafios de cada projeto ou operação, muitas vezes orquestrando a atuação dos especialistas.
Esses perfis se complementam dentro de uma squad. Mesmo entre profissionais generalistas, cada integrante costuma ter maior domínio de determinados sistemas e pode apoiar os colegas quando uma situação exige aprofundamento. A capacidade da equipe se fortalece com essa combinação de conhecimentos e com a troca de experiência.
Na prática, as empresas precisam pensar cada vez menos em um profissional isolado e mais na combinação de capabilities necessária para sustentar uma operação. Isso muda a forma de estruturar equipes e selecionar profissionais, considerando tanto a capacidade individual quanto a contribuição de cada pessoa para o grupo.
Demanda raramente é constante
Há ainda uma dificuldade adicional: a necessidade de talento técnico não acompanha uma curva previsível de headcount.
Uma migração tecnológica pode exigir novas competências durante alguns meses. Um rollout aumenta temporariamente a necessidade de engenheiros. Grandes eventos concentram demanda. Projetos entram e saem do pipeline. No esporte, diversas produções acontecem simultaneamente e pressionam um grupo limitado de profissionais especializados.
A SVG Europe relata situações em que empresas de outside broadcast precisaram alterar planos de produção simplesmente porque não havia engenheiros suficientes disponíveis para operar determinada estrutura.
Para a empresa, manter permanentemente todas essas capacidades internamente nem sempre faz sentido. Por outro lado, descobrir que falta uma competência crítica quando um projeto já começou também pode custar caro.
Além dessas variações, há necessidades contínuas de competências técnicas para compor equipes e acompanhar a evolução da operação. Essas necessidades podem se estender por anos, com profissionais integrados ao dia a dia da empresa.
É justamente nesse espaço que modelos como o Talent as a Service começam a ganhar relevância.
O desafio de transformar competências em equipes
Bom, é aqui que vou pedir "licença" para contar como a CIS está ajudando a resolver esse problema.
É nesse contexto que estruturamos o CIS Talent as a Service. A iniciativa nasceu da experiência acumulada pela CIS ao longo de décadas, com dezenas de sistemas complexos instalados em grandes empresas de mídia, jornalismo e esportes no Brasil, nos Estados Unidos e na América Latina, e da percepção de que muitas empresas precisam de acesso a competências específicas tanto para demandas pontuais quanto para compor suas equipes de forma contínua, com profissionais contratados e geridos pela CIS que podem atuar por anos integrados ao dia a dia do cliente.
O modelo combina seleção, contratação e gestão de profissionais generalistas e especialistas com o conhecimento que a CIS já tem dos ambientes técnicos em que eles vão atuar, incluindo uma compreensão profunda da cultura e da dinâmica de trabalho de muitas empresas desse mercado. Essa experiência também nos prepara para atender outros setores, considerando as particularidades de cada organização. Isso permite trabalhar tanto com profissionais individuais quanto com células, e squads, em demandas contínuas ou temporárias, ajustando a capacidade conforme projetos, transformações tecnológicas ou picos operacionais.
A lógica é simples: reduzir o tempo entre a identificação de uma necessidade e a chegada da competência certa à operação, sem perder aderência técnica, contexto ou continuidade. Para empresas que lidam com tecnologias cada vez mais integradas e demandas que mudam rapidamente, essa flexibilidade passa a fazer parte da própria estratégia operacional.
Vamos conversar?
Fontes
- IABM Impact - https://www.iabmimpact.com/the-skills-to-succeed/
- IBC 365 - https://www.ibc.org/people-purpose/news/ibc-launches-study-to-map-the-media-technology-talent-pipeline/22794
- SET PORTAL - https://set.org.br/news-revista-da-set/set-expo/dificuldades-para-formar-engenheiros-de-television/
- SVG Europe - https://www.svgeurope.org/blog/headlines/skills-shortages-the-educators-view-of-an-industry-in-crisis/
Receba as próximas ideias da CIS.
Perspectivas, projetos e ideias sobre as tecnologias que estão transformando as operações de mídia.


